Encontrando seus antepassados medievais: 5 dicas para ser bem-sucedido

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Daniela Cybulskie, autora de “Os cinco minutos medievais”, escreve para o site medievalist.net. Seus trabalhos já foram publicados em The Medieval Magazine, Medieval Warfare Magazine e Ancient History Magazine. Ela é mestre em literatura inglesa pela Universidade de Toronto, onde se especializou em literatura medieval. 

Traçar a vida dos seus antepassados até a Idade Média (séculos V – XV) é algo muito difícil. Muitas pessoas viveram e morreram sem deixar rastros de si mesmas em documentos oficiais e nem sempre há coerência em registros de sepultamento medievais e monumentos. Para piorar, mudanças amplas na religião e na política, como a Guerra Civil Inglesa, ou a Revolução Francesa, implicam na destruição de muitos documentos eclesiásticos, enquanto que duas guerras mundiais acabaram por danificar e destruir outros registros e artefatos. Assim, é inútil tentar traçar as raízes até um ponto tão distante do passado? Não necessariamente, porém você deve estar preparado para ter muita paciência e alguma criatividade. Aqui estão cinco dicas para ajudá-los a encontrar seus antepassados medievais, através de exemplos ingleses.

1- Não deixe que preconceitos e pré-conceitos sobre a Idade Média o detenham.

Embora a grande maioria da população da Idade Média fosse analfabeta, havia ainda assim uma grande preocupação na documentação a fim de que direitos e posses fossem resguardados. Desta forma, embora seja verdade que há poucos documentos datando da Idade Média, Há vários tipos de registros disponíveis, relacionados aos séculos XII-XV, o que é uma ótima notícia para genealogistas. Foram feitos registros de batismo (os de nascimento não eram comuns nesta época), casamentos e falecimentos e registros de outros tipos, que nós, na nossa modernidade, não teríamos pensado que já existissem. Os soldados da Guerra de 100 anos, por exemplo, não eram simplesmente levados de suas terras para os campos de batalha – eles eram pagos pelos seus serviços. Ao pesquisar em um banco de dados como medievalsoldier.org, você poderá encontrar não somente nomes de soldados, mas também, seu local de origem, cargo, data e tipo de serviço e até o nome de seu capitão. Registros de guilda no site londonroll.org irão lhe mostrar o status de cada pessoa na guilda, incluíndo registros de aprendizes novos. Também eram registrados nomes em casos de transferência de terras, testamentos e também em situações de disputas levadas a cortes seculares ou religiosas (crimes medievais eram divididos entre seculares e religiosos, então é importante pesquisar nos dois tipos). Pessoas de todas as classes sociais participavam das ações como autores, réus, testemunhas ou jurados, de formas que ações na corte são fontes ricas de nomes e escândalos na família, não diferente de hoje em dia. Alguns registros interessantes da Corte de Ações Populares podem ser pesquisadas no site www.british-history.ac.uk.

2- Se você tiver dificuldades em ir para trás, vá para a frente.

É possível que você acabe se deparando com alguma lacuna entre o século XVI e XVII quando um verdadeiro caos político e religioso interromperam a continuação dos registros. A maioria das família medievais permaneceram no mesmo lugar por gerações a fio, ou migraram para a cidade grande mais próxima, para tentar encontrar trabalho. Desta forma, caso você saiba onde foi o último lugar em que você encontrou seus antepassados, procure por ali. Se ao voltar no tempo, você encontrar um beco sem saída, tente procurar um pouco mais cedo na mesma cidade,lugarejo ou paróquia e tente encontrar o sobrenome em testamentos e transferências de terras – bem como outras informações – em medievalgenealogy.org.uk.

3- Tente grafias diferentes.

Cada área da Inglaterra medieval tem um dialeto próprio, o que também implica em vários tipos de ortografia. Além disso, o inglês é uma mistura de duas línguas (anglo-saxão e francês), o que significa que um mesmo sobrenome pode ter sido escrito de várias maneiras diferentes, dependendo de quem escrevia o nome. Felizmente, a maioria dos bancos de dados ingleses tem uma grafia padrão. No entanto, caso você esteja encontrando dificuldades, use a sua criatividade e tente escrever o nome foneticamente, usando a grafia francesa ou alemã. Para se inspirar e ver como eram os sobrenomes ingleses antigos e suas grafias, dê uma olhada no The Domesday book, o censo de 1086 AD, de William o conquistador.

Árvore genealógica de João, Duque de Lancaster – British Library

4- Consulte um especialista.

Na Idade Média, os registros oficiais tanto da Igreja, quanto do Estado, eram escritos em latim, o que pode fazer com que seja difícil entendê-los. Mesmo que você tenha tido latim na escola (e mesmo o português sendo um primo do latim), os registros são difíceis de entender com suas abreviações, ortografia errada e letra manuscrita ilegível. Embora o Reino Unido já tenha feito um trabalho incrível – traduzindo registros, muitos deles ainda estão indisponíveis em inglês. Por sorte, os especialistas medievais são um grupo muito prolífero e prestativo, que já está ativo há décadas, transcrevendo e traduzindo registros do Estado e da Igreja. Com isso, há chances de que um deles possa levá-lo ao rumo certo. Muitas vezes é possível encontrar o email de um estudioso medieval no site da universidade, da qual ele faz parte. Porém, embora os estudiosos fiquem muito lisonjeados ao serem indagados sobre o seu trabalho de pesquisa, eles também costumam estar sobrecarregados de trabalho. Caso você seja bem específico na sua pergunta, fornecendo nomes, locais e fontes que você esteja investigando e se você contactá-los no período de março a agosto, quando o volume do trabalho é um pouco menor, você terá mais chances de receber as respostas que está procurando. Para começar a tentar traduzir documentos em latim por conta própria, confira os tutoriais para leitura de documentos antigos no Arquivo Nacional.

5- Seja paciente.

Caso você tenha lido este artigo até aqui, você provavelmente já notou que tem bastante auxílio na internet, para ajudá-lo a procurar suas raízes bem mais além do que você imaginava. Contudo, ainda assim, pesquisar as raízes medievais é um trabalho desafiador. A cada dia, mais bancos de dados estão sendo atualizados e inseridos em sistemas, para ajudar pesquisadores medievais e genealogistas a rastrear as origens das pessoas comuns. Mas é preciso usar muito o google, improvisar e seguir links, para encontrar aquilo que você está procurando. Com paciência, resiliência e talvez alguma ajuda, você poderá ser recompensado com algum dado que nunca sonhava em encontrar. Acima de tudo, você provavelmente fará fascinantes descobertas sobre o incrível mundo da Idade Média.

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