28    mai 20129 Comentários

Entrevista com Vicente Vale

Hoje trazemos até você a entrevista concedida pelo historiador Vicente Vale, que exerce o cargo de Secretário de Cultura em Queluz, S.P., Brasil e especializado nas Ciências Auxiliares da História (Paleografia, Heurística, Sigilografia, Diplomática e Heráldica), graduado também em Arquivologia e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Sua presença entre os nossos contatos já nos trouxe grandes alegrias e encorajamento nas questões de preservação do Patrimônio Público.

Vicente Vale nasceu em 02 de maio de 1956 em Borborema/SP, filho de Geraldo Magela Vale e Maria Cândida Vale.

Sua coragem em enfrentar determinadas situações juntos aos responsáveis pela preservação histórica, nos mostra que é preciso muita determinação e na maioria das vezes lutar sozinho por causas que deveriam ser a de todos.

Acreditamos que muitos como Vicente Vale também estão em batalhas solitárias e precisam ter o seu trabalho e suas lutas mostradas para que outros se juntem a eles e possam fazer frente ao continuo fluxo de perda dos arquivos e patrimônio que representam a nossa história comum.

MH: — Sua especialização, nos leva pelos caminhos da Colonização do Vale do Paraíba, um dos maiores centros de história do Estado de São Paulo, em sua opinião como anda a preservação do patrimônio nesta região?

Vicente Vale: — Péssima e de mal a pior. Quem deveria preservar, por exemplo, Tomba e deixa cair e se não bastasse, mandou derrubar o Sobrado do Capitão Silveira em Silveiras, S.P., casarão este que Duque de Caxias esteve para assinar o acordo para cessar a Revolução Liberal de 1842, sem contar o caso do prédio da fazenda Boa Vista na cidade de Cruzeiro. Este foi o primeiro prédio Tombado pelo Órgão, e só está sendo restaurado por conta de uma Ação Judicial que condenou o Estado na Obrigação de Fazer. Em nível de Governo Federal vejamos o Iphan que desapropriou e comprou a Fazenda Pau D’Alho em São José do Barreiro. Esta mais que centenária Fazenda que abrigou inúmeras autoridades do Brasil Colônia, 1º Império, Regência, 2º Império e República, meses atrás teve todo seu acervo covardemente furtado por falta de zelo e precaução do Órgão competente.  O que está acontecendo aqui não é diferente dos tantos casos ocorridos no Estado, pois são muitos frequentes os casos de tombar e abandonar, que é o caminho mais curto para a deterioração e dilapidação do patrimônio histórico.

Demolição do SOBRADO DO CAPITÃO SILVEIRA

MH: — É sabido que diversos acervos e patrimônios estão esquecidos e deteriorando. A culpa é somente do Estado ou também é do público que dá pouco interesse pelo assunto.

Vicente Vale: — Eminentemente culpa do Estado e da União. A propósito o Ex-Presidente do Condephaat Arquiteto Rui Ohtake em entrevista a Folha de São Paulo de 20/01/1980, foi enfático quando disse: “Só acredito no Condephaat (órgão responsável pela preservação do patrimônio no Estado de São Paulo), atuando na vanguarda, diagnosticando com segurança os nossos valores culturais. Por isso, o Condephaat não deve atuar a reboque dos acontecimentos”.

E sobre a falta de interesse e a grande apatia da população em geral é porque não existe implantado absolutamente nada nas escolas do ensino fundamental ao universitário nada a respeito de Educação Patrimonial. Não é passado nada para os jovens e adultos, e ninguém pode amar aquilo que não conhece. Infelizmente não foi e não é transmitida ainda aos jovens a noção de coletividade sobre o patrimônio histórico que é o que justifica a existência dos nossos antepassados, é o que configura o espaço do cidadão por excelência, caracteriza o homem como cidadão e agente participativo no desenvolvimento da cidade. O Patrimônio não é somente composto pelas edificações históricas, mas também pelo saber fazer populares (o café que em princípio é uma semente e em seguida é transformada em pó solúvel), as histórias e lendas contadas pelos nossos avós, enfim o Patrimônio se faz pelas manifestações culturais de um povo e de uma nação. É urgente essa tomada de decisão, caso contrário só nos restará à lamentação quanto às perdas irreparáveis.

MH:— Poderia destacar alguma ação que a população tenha participado de restauração ou defesa do patrimônio?

Museu Major Novaes

Vicente Vale:— Diretamente apenas o caso da Fazenda Boa Vista de Cruzeiro (Museu major Novaes), onde através de uma Ação Civil Pública o Estado foi condenado na Obrigação de Fazer, e está fazendo. Não conheço e nem tive notícias de outras ações, se alguém estiver lendo, por favor, me comuniquem. Todavia um grande aliado, porém quase ninguém utiliza é o Ministério Público que tem o dever de agir para cumprir o que é direito assegurado pela Constituição Federal e Estadual, e toda legislação concernente ao Patrimônio Histórico, que é obrigação do Estado em dar proteção especial ao bem tutelado.

MH:— Sobre genealogia, muitas famílias do Vale do Paraíba já estão fazendo suas árvores genealógicas e estudando sua história família, onde é possível no Vale encontrar apoio de profissionais nesta situação?

Vicente Vale:— São pouquíssimos os profissionais atuando diretamente nesta área de pesquisa genealógica, até porque se exige um conhecimento nas Ciências auxiliares da História (Paleografia, Heurística, Sigilografia e Diplomática), matérias que desapareceram dos Cursos de História. Existem sim muitos autodidatas que vem fazendo algumas pesquisas.

MH:— Muitas famílias do Vale são oriundas da nobreza portuguesa, alguns detêm brasões e insígnias, qual é o erro mais comum enfrentado por quem procura pelo brasão da família?

Vicente Vale:— Todas os patronímicos (apelidos de família) estão já compostos pelos Reis de Armas na Obra “ARMORIAL LUZITANO” um livro editado em 1961 que trata da história das famílias de Portugal e Brasil, suas origens e suas armas. O erro mais frequente é a falta de atualização do Brasão de Armas.

MH: — É possível se registrar um brasão familiar?

Vicente Vale:— Claro que sim , na BIBLIOTECA NACIONAL.

MH:— Qual é o procedimento necessário para alguém definir seu brasão?

Vicente Vale:— A Heráldica é uma Ciência auxiliar da história que estuda os Brasões de Armas e se divide em cinco: Domínio (cidades); Cívica (bandeiras); Família (família); Eclesiástica (símbolos religiosos) e a Militar (símbolos militares). Só para exemplificar: Numerosos municípios da nossa imensa Pátria e raros os cultores da Heráldica, deu-se a criação de Brasões de Armas, em grande número de cidades, sem o ASSESSORAMENTO DE HERALDISTAS e, pois com copiosos erros. A elaboração de um Brasão de Armas, em verdade, está adstrita ao entendimento às leis da ciência Heráldica, além de obrigatoriamente prestar reverência ao bom gosto e representar algo típico do município do qual é símbolo. A tarefa, portanto, somente deve ser atribuída a pessoas com sólidos conhecimentos da Heráldica, além de extensa cultura geral, notadamente no que se refere à história, à geografia, à botânica, etc.

MH:— Seu conselho para genealogistas iniciantes.

Vicente Vale:— A genealogia é entre os ramos da história o que especialmente se refere às famílias, estudando-lhes as origens, mostrando sua evolução, descrevendo as gerações e traçando as biografias das pessoas que a compõem. Este trabalho é fascinante, porém exige-se muita dedicação, fica a dica.

A entrevista com Vicente Vale é um exemplo da situação que estamos vendo acontecer em diversos locais pelo Brasil. Na maioria dos casos a reclamação dos profissionais é a mesma.  Arquivos que os genealogistas autodidatas lutam por encontrar, arquivos que estão espalhados, arquivos em posse de instituições e grupos que não são de acesso público e tantos outros casos que muitas vezes nos desencorajam.

A entrevista poderia ser muito mais completa. Vicente Vale tem grande experiência e muitos casos que poderiam ser aqui debatidos. Vamos nos manter neste patamar. O patamar que nos liga em uma única linha que é a educação que deveria ser a educação ideal para o nosso povo, caracterizando a constante busca do passado e nas ações e atitudes que fizeram nossos países chegarem aonde chegaram.

O conceito de preservação, se não partir das escolas, se não constar das grades de ensino, se não fizer parte da rotina educacional de nossas crianças, deve partir de nós pais, primeiros educadores.

Vejo muitas vezes que o assunto de História da Família, não é levado aos pequenos, e isso é um erro muito básico para deixarmos crescer. O interesse pela sua história, pela história de seus pais e avós irá fazer com que uma criança crie admiração pelos antepassados e assim irá incorporar as suas necessidades a preservação dos locais que representaram momentos e emoções na vida de seus parentes. Levar a genealogia a crianças é um dos caminhos, existem outros e que podem contribuir com história. Participe de grupos de história, se não existir em sua cidade ou região, crie. Lute para preservar prédios e locais públicos.

Temos que fazer algo para nossa memória não virar entulho.

Comentários (9) Trackbacks (0)
  1. Na falta de palavras melhores : PARABÉNS VICENTE VALE !
    O Vicente Vale é um monumento histórico,um patrimônio humano singular, e uma pessoa impar nessa luta inglória ,no Brasil, em defesa de nossa História.
    Diferentemente de outros países de 1. mundo ,em que vemos escolares de tds as idades visitando ,por ex. o LOUVRE, e aprendendo a memória de seu país ao vivo e em cores ; aqui vemos o patrimônio histórico ser ,literalmente, "tombado" ,no chão.
    Durante a Semana de Museus em Queluz-2012 ,este baluarte da História, demonstrou seu poder de fogo, suor e trabalho ,atendendo tds aquelas crianças de escolas públicas ,o dia inteiro, em visitas guiadas ( por ele) ao museu.Impecável ,também, a programação da Semana!
    O Museu ,este fala por si ,tal o cuidado ,capricho e organização que se vê lá .
    Parabenizar Vicente Vale, é pouco .
    Elogiar é nada ,diante da grandeza deste homem que ,humildemente ,faz o impossível para que não sejamos,por uma infeliz ironia, os desmemoriados do Vale Histórico .
  2. PARABENS VICENTE VALE..PESSOAS QUE PENSAM E AJEM COMO VOCE ESTÃO INFELIZMENTE ENTRANDO EM EXTINÇÃO, EU ADORO HISTÓRIA E SOFRO MUITO QUANDO VEJO UM CASARÃO, UMA CONSTRUÇÀO HISTÓRICA SENDO DESTRUIDA, OU SENDO MODIFICADO SEM PIEDADE..E QUANDO FALO A ALGUEM, A MAIORIA CHAMA DE VELHARIA..OS JOVENS ENTÃO, RAROS OS QUE DÃO VALOR..NÃO APRENDERAM A AMAR, COMO ESPERAR ALGO DE QUEM NÃO TEM NADA PARA DAR..
  3. Já havia recebido a notícia da restauração da casa da Fazenda Boa Vista. A amiga de Lorena, Helen Brito, me informou. Dou graças a Deus por isto. É que a casa da Boa Vista foi construída pelo meu 4º avô, Antônio Dias Telles de Castro, logo que se casou pela 2ª vez com d. Joaquina, por volta de 1840. Antes era casado com d. Maria Inocência de Castilho.
    Tinha as fotos tiradas por mim com o pau-a-pique desmoronando, agora poderei te-la intacta. Isso dará muito valor a genea que já faço a 5 anos
  4. Deus guarde VICENTE VALE para continuar sua luta em prol da História e do Patrimônio Público. Parabéns Vicente Vale pelo seu zelo. Muito obrigado.
  5. eu sou um apaixonado pela historia de meu municipio, nao sou um guru como meu amigo vicente, mas me espelho nele, pois sei que um homem sem historia é um homem condenado, devo um pouco de minha paixao ao vicente, pois me recordo que sempre quando ia no museu , via a figura daquele homem bem trajado, com palavras certeiras, explicando cada detalhe nao so dela, mas de nossa historia no museu, gostaria de agradecer a ele,(vicente), por ter me ensinado que gostar, publicar, divulgar a nossa historia vale muito a pena....
  6. Parabéns, grande entrevista.
  7. Parabéns meu querido Vicente Vale. Como sempre, aprendendo MUITO com você!!!
  8. ola meu querido eu preciso muito falar com vc se possivel. entra nos email q vou deixa ok um forte abraço
  9. ou falar comigo no msn facebook ou twitter ok

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