Traços genéticos: está no sangue da família

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Você já reparou que alguns traços genéticos são passados adiante dentro de uma família, às vezes gerações a fio? Talvez você não perceba isso de cara, mas ao ver como estas características e semelhanças aparecem repetidamente na sua árvore genealógica, elas se tornam óbvias. Por exemplo, talvez a sua família seja do tipo que adora deixar para amanhã o que pode fazer hoje, ou talvez todos tenham o mesmo nariz arrebitado. Ou ainda, todos vocês tenham o costume de mudar de casa frequentemente.

Mas são nestes traços genéticos que nossas histórias realmente ganham vida e a linha entre o passado e o presente ficam tênues. Para algumas famílias, é preciso somente dar uma olhada rápida na árvore genealógica para confirmar a influência em várias gerações.

Esposa e marido recebem prêmio Nobel

A árvore genealógica de Marie Skłodowska Curie e Pierre Curie não conta apenas com vários cientistas, mas, também, com vários vencedores do Prêmio Nobel. Marie Curie, por exemplo, recebeu o prêmio duas vezes. Existem algumas famílias, com vários Prêmios Nobel para chamar de seus, mas foi somente na família Curie, que o prêmio foi recebido por marido e mulher duas vezes: Marie e Pierre Curie levaram o prêmio Nobel da física em 1903, pela descoberta da radioatividade e a filha deles Irène Joliot-Curie e o genro Frédéric Joliot levaram o prêmio Nobel da química, em 1935, pela síntese de novos elementos radioativos.

Ambos os casais se conheceram através do trabalho. Marie e Pierre foram apresentados um ao outro através de um amigo em comum, o físico polonês Józef Wierusz-Kowalski. Na época, Marie estava precisando de um espaço em um laboratório e Pierre, como chefe do laboratório de física na Escola Municipal de Física e Química Industrial, tinha espaço disponível. Irène e Frédéric Joliot-Curie se conheceram no Instituto Radium, onde ela estudava os dois elementos que seus pais tinham descoberto – rádio e polônio – e ele trabalhava como assistente da Marie Curie. Da mesma forma, a filha de Irène e Frédéric – a física nuclear Hélène Langevin-Joliot, conheceu o marido, o físico Michel Langevin, na época em que os dois estudavam no Instituto de Física e Química (coincidentemente, Michel Langevin é o neto de Paul Langevin, um doutorando de Pierre Curie e também ex-namorado de Marie, depois de Pierre ter falecido, após um acidente com uma carruagem).

Marie Curie e sua filha Irene (Aproximadamente 1925)
Marie Curie e sua filha Irene (Aproximadamente 1925)

Descendentes científicos

Quando a genética e o ambiente estão muito interligados fica difícil dizer qual é a motivação principal. Será que carreira na área das ciências era um desejo herdado ou adquirido? Ou será que foi o resultado de ir bem em uma matéria, ou ainda era o que a família esperava (ou uma combinação de todos estes fatores)? Colocamos aqui o que Hélène tinha a dizer sobre o seu interesse pela ciência durante uma entrevista:

Eu era uma boa aluna em matemática e ciências. Eu sempre achava que ciências era uma coisa legal quando eu ouvia meus pais falando sobre o assunto. Principalmente a minha mãe me ensinou que ninguém precisa ser um gênio para se tornar um pesquisador. Isto estimulava muito. Acho que de contrário eu teria escolhido fazer uma coisa totalmente diferente.

Um amor pelo aprendizado é a parte central do sucesso da família. Tanto Marie quanto Pierre vieram de famílias que valorizavam a educação – a mãe de Marie ensinava vários idiomas e o pai era professor de matemática e física. Do lado do Pierre, tanto o pai quanto o avô eram médicos (a irmã e irmão de Marie também viraram médicos)  e todos estudavam bastante em casa. O pai de Marie lia para ela e os irmãos livros e poesia e também lhes dava exercícios de matemática para resolver – uma tradição que Marie também levou para os seus próprios filhos. Pierre foi educado em casa, pela sua mãe, pai, irmão mais velho e professores particulares. Marie e seus amigos (professores e cientistas) também montaram esquemas semelhantes nas suas famílias. Desta forma as filhas de Marie – Irène e Ève – estudaram dois anos as disciplinas de matemática, química, literatura, história e física com os seus pais e colegas dos seus pais.

Exceção familiar

Ève foi uma exceção notável à regra da ciência-medicina-matemática, embora também tenha sido muito bem-sucedida em sua área, como o restante da família. Ela foi uma aclamada pianista, crítica musical e jornalista. Ève também escreveu Madame Curie, uma biografia sobre sua mãe. O bestseller acabou se tornando um filme bastante popular.

Embora Ève não compartilhasse com sua mãe e irmã o gosto pelas ciências, ela foi tão determinada quanto as duas em levar a vida que escolheu para si. Ela se recusava a se conformar com os estereótipos do gênero que ainda inibem as mulheres nos dias de hoje. Ela foi correspondente de guerra durante a Segunda Grande Guerra e estava em ação diretamente nas trincheiras da África e Ásia e se casou com o diplomata americano Henry Labouisse com a carreira já consolidada. Quando Henry se tornou o diretor geral da UNICEF, Éve também se juntou à organização faznedo trabalho voluntário. Ele ainda estava à frente da UNICEF quando levou o Prêmio Nobel da Paz, em 1965. Ève costumava brincar que todo mundo ganhou um Nobel na sua família, menos ela.

Porém, não ter seguido os passos da mãe poupou Ève de uma morte em tenra idade. Tanto sua mãe Marie, quanto a irmã Irène morreram joven, pela exposição à radiação. Ève, por sua vez, viveu até os 102 anos, um fato que a fazia se sentir culpada.

Quais traços genéticos podem ser encontrados na sua família? Quais são as semelhanças e quais as diferenças?

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