O KGB e a cortina de ferro: solucionando um mistério de décadas

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Depois de inúmeras tentativas de localizar os familiares que desapareceram na antiga União Soviética, Rani Markovich já não imaginava que iria conseguir encontrar seus parentes. Seu avô acabou se separando de seus irmãos com a cortina de ferro e todos os esforços para localizar sua família falharam. A família parecia ter evaporado.

A tia de Rani, a única que poderia ajudar a contar um pouco da história da família, tinha ficado doente, com o mal de Alzheimer, e quaisquer informações que ela pudesse ter, tinham se perdido, juntamente com sua memória. A Rani estava realmente num beco sem saída.

Porém, tudo mudou quando o irmão de Rani viu uma entrevista com o fundador e CEO do MyHeritage, Gilad Japhet, sobre o sucesso que o MyHeritage vem tendo em encontrar parentes perdidos. Rani ficou muito surpreso em ver que se tratava da empresa de um velho amigo. Os dois serviram juntos no exército e embora a vida os tenha separado um pouco, Rani e Gilad foram bons amigos. Então, Rani decidiu ir direto à fonte e entrou em contato com Gilad, via Facebook:

“Ficaria muito feliz se você pudesse me por em contato com as pessoas certas na sua empresa, para que, talvez, um milagre pudesse acontecer. Eu ficaria muito feliz se pudesse realizar um sonho antigo, que sempre me pareceu impossível: ajudar a família do meu avô, com os quais perdi totalmente o contato. Só o que ainda tenho são minúsculos fragmentos de informações e nada mais.”

Ele estava bem consciente de que a pesquisa seria extremamente difícil, para não dizer impossível. O que o Rani não sabia é que não existe a palavra impossível no dicionário do Gilad! Este é o tipo de desafio que o Gilad não consegue resistir. E, assim, ele respondeu imediatamente, pedindo mais detalhes. Gilad também respondeu que não precisava contactar ninguém da empresa, já que ele mesmo iria fazer a pesquisa. Daí em diante, as coisas aconteceram muito depressa.

Rani começou a contar para o Gilad tudo o que ele sabia sobre a história da família, o que na época não era muito. 30 anos atrás Rani fez uma pequena árvore genealógica, quando elei ainda estava na escola e como parte de um trabalho escolar. Também como parte do trabalho, ele gravou uma entrevista com seu avô Shabtai (Sheftel). Infelizmente, tanto a gravação quanto a árvore acabaram se perdendo quando ele mudou de casa, algum tempo depois.

Shabtai Ben-Zvi (Baskin)

Shabtai (Sheftel) Baskin nasceu em Slutsk, na Bielorússia. Ele foi um ativista do sionismo e foi preso em meados da década de 20, já que a divulgação do sionismo era proibida em Gulag, nos Montes Urais. Depois de ser solto, ele foi mandado para Stalingrado e de lá ele percorreu todo o caminho até Nikopol, na Ucrânia. Foi neste país que suas duas filhas (a mãe e tia de Rani) nasceram.

Quando os alemães invadiaram a União Soviética, a família fugiu para o leste. O avô de Rani gostava muito de ouvir rádio e ele ouviu um relato de que os alemães estavam matando os judeus. Eles continuaram fugindo e chegaram na Armênia. No final da guerra, ele decidiu por em prática toda a sua visão do sionismo e imigrou para Israel.

Sheftel  e a família tiveram que enfrentar uma situação bastante trágica quando o filho foi morto na Guerra pela Independência de Israel. Com isso, Sheftel decidiu mudar seu sobrenome para Ben-Zvi em homenagem ao filho morto, Zvi.

Desde que perdeu contato com a sua família na década de 30, Sheftel tentou reencontrar seus irmãos. No entanto, ele faleceu em 1980 sem ter tido a chance de reencontrar os irmãos. A busca pelos antepassados de Rani  é também uma tentativa de honrar o legado do seu avô.

Uma foto e um nome desconhecidos

Rani se lembrou de uma foto antiga da família com uma mulher e uma criança. Sua tia havia lhe dito que o seu avô tinha recebido aquela foto, depois do final da guerra, da viúva de um dos seus irmãos, que morava na área de Leningrado (São Petesburgo). Porém, Rani e sua família não tinham mais aquela foto em mãos. Ela se perdeu, juntamente com o nome da mulher e criança lá retratados.

Rani visitou a Bielorússia em 2003 e fez o requerimento num arquivo local, para localizar documentos sobre a família do seu avô. Em um dos documentos estava o nome de uma mulher – Polina Josipovna Baskina – embora Rani não mais se lembrasse o porquê de ela estar ali, ou quem a mulher seria.

Gilad começou então a trabalhar com estas esparsas informações e tentou localizar Polina Josipovna Baskina no vasto banco de dados do MyHeritage. O sobrenome Baskina é raro, bem como o primeiro nome Polina. A combinação deste primeiro nome com o sobrenome é mais rara ainda, de forma que as chances de encontrá-los é maior.

Gilad então escreveu para Rani:

“A verdade virá à tona. Temos aqui duas possibilidades: por um lado o desapontamento, mas por outro lado um reencontro emocionante. E são estes encontros familiares que me dão a motivação para fazer as coisas bizarras que faço – como ficar pesquisando a sua família durante as madrugadas.”

Achados e perdidos

A extensa pesquisa de Gilad tentou encarar este mistério de todos os ângulos possíveies. E acabou desenterrando um detalhe precioso. Em um livro escrito pela Profª. Ziva Galili sobre o sionismo na União Soviética, Gilad encontrou uma referência sobre o Shabtai Ben-Zvi.

Depois de entrar em contato com a autora Galili para pedir mais informações, a mesma foi consultar o material de pesquisa que usou para escrever o livro e ela encontrou uma entrevista que gravou com Sheftel em 1966, de 3 horas de duração! Rani conseguiu ganhar uma cópia da gravação e agora tem o raro prazer de ouvir a voz do seu avô sendo entrevistado por Yaakov Bar Haim e contando as histórias fascinantes da sua vida.

A gravação fez com que Gilad percebesse que ele teria que localizar os registros do Sheftel na KGB para poder receber mais informações, já que Sheftel tinha sido interrogado pela KGB.

Gilad pediu ajuda a Yuri Dorn, um genealogista profissional da Bielorússia, para ir pessoalmente tentar encontrar documentos relevantes. Yuri fez uma peregrinação pelos arquivos e logo conseguiu encontrar alguns documentos. Gilad ficou eufórico em descobrir que o Yuri tinha conseguido encontrar o nome do irmão do avô de Rani – Boris. Ele encontrou até mesmo o nome do avô do avô do Rani, bem como o endereço do local onde a família costumava morar. Com estes resultados promissores, aumentou bastante a chance de localização de descendentes vivos.

Gilad escreveu então para Rani e pediu para ele procurar qualquer documento ou foto que pudessem contribuir com o projeto. Uma semana depois, Rani revelou que tinham conseguido encontrar aquele antigo projeto da escola, da elaboração da árvore genealógica da família!

“Tenho boas notícias! Meus pais acharam a árvore genealógica que eu fiz quando era pequeno e também a gravação da entrevista com o meu avô há 30 anos.”

Com a árvore genealógica da família em mãos, foi possível determinar que os nomes dos irmãos do avô eram Zvi (Hirsch), Pinchas e Boris. Pinchase era casado com uma mulher chamada Fania, e eles não tiveram filhos.

Três meses mais tarde, veio a grande reviravolta.Yuri, o genealogista, enviou um email dizendo que ele tinha encontrado detalhes sobre os dois irmãos do Sheftel: Pinchas eBoris, incluíndo seus endereços. De acordo com os achados, Pinchas foi deportado para a região de Novosibirsk. Boris tinha desaparecido durante o serviço militar.

Esta descoberta incrível estava dentro do arquivo do Sheftel na KGB, inclusive com fotografias raras dele como prisioneiro no Gulag. Os documentos também davam detalhes da sua prisão em maio de 1925, com fotografias e documentações do seu interrogatório pelo interrogador Andreyev. De meados de 1922 até 1923 , Sheftel foi um membro do movimento sionista ilegal “Kadima”, em Slutzk. Ele foi preso pela terceira vez em Grozobos, Slutsk.

Uma reviravolta: arquivos dos interrogatórios da KGB (clique para ampliar)

O testemunho completo do Sheftel está no arquivo. Ele admite abertamente tudo que foi encontrado em sua posse, como materiais impressos em hebraico. Ele se recusou a dar o nome e o endereço do homem que lhe tinha passado estes materiais. Também foram encontrados documentos manuscritos em hebraico.

Também haviam cartas escritas pelos pais de Sheftel no arquivo: “Seu pai foi para Moscou hoje cedo, para tentar pedir uma pena mais branda, por causa daquela doença pulmonar que você já tem desde pequeno.”, escreveu sua mãe. “Por favor escreva mais vezes e tome cuidado com a sua saúde”, continua ela. O pai prometeu fazer tudo ao seu alcance para libertá-lo: “Tenho certeza que em alguns meses você receberá um perdão pela sua pena. Vou te mandar 10 rublos, por favor tome cuidado com a sua saúde”.

Alguns dias depois, Yuri comentou com Gilad e Rani que eles estavam próximos de resolver este mistério.

“Hoje foi um dia de vacas gordas. Encontramos documentos em São Petesburgo que mostram que a família de Pincha voltou para Leningrado. Em outubro de 1944 sua esposa Faina e as duas filhas, Galina e Tatiana, voltaram para São Petesburgo.”

Ele conseguiu localizar a sepultura de Pincha e encontrou os registros de sepultamento, onde constava o nome de Galina Petrovna Linnik como organizadora do funeral. O endereço de Galina, que aparecia nos registros de cemitério, era o mesmo endereço que constava nos registros do cartão de imigração, localizados por Yuri. Gilad partiu do princípio de que Gaina era a filha de Pincha e que ela havia emigrado para os Estados Unidos.

Galilna foi vista pela última vez em 1961, em São Petesburgo, na Rússia e Gilad não sabia ao certo como conseguiria localizá-la. Ele fez uma busca mas não conseguiu localizá-la. Ele decidiu então tentar sua sorte no Facebook. Galina já deveria ter uns 90 anos e centenas de Galina Linniks apareceram na sua busca… algumas escrevendo em russo, outras em inglês. Como bom (e teimoso!) genealogista que é, Gilad foi de perfil em perfil, analisando cada mulher com a idade aproximada de Galina até que…. bingo! Ele encontrou uma Galina Linnik, de mais idade, oriunda de São Petesburgo, que agora vivia em Indiana, nos Estados Unidos. Ao pesquisar no perfil dela, Gilad viu que ela mencionava vários nomes da família, que lhe eram familiares. Ele realmente tinha encontrado a sobrinha do avô de Rani!

Perfil de Galina Linnik no Facebook

No dia 9 de novembro Gilad contou para Rani que a busca tinha terminado:

“Nós localizamos a sua família, há tanto tempo desaparecida. Yuri Tzedek, Galina e Tatiana realmente deixaram a Rússia e emigraram para os Estados Unidos. Encontrei uma mulher chamada Galina Linnik no Facebook, que diz ter nascido em São Petesburgo e que agora vive em Indiana, nos Estados Unidos. Em uma outra busca, pude constatar que a Tatiana faleceu em 2014. Ela tinha um filho chamado Michael e um marido chamado Paul. Bingo! Encontramos a família nos EUA. A Tatiana já é falecida, mas deixou família e a Galina ainda está viva.”

Um reencontro emocionante

Aproximadamente seis meses depois de pedir ajuda ao seu amigo Gilad, Rani e seus pais foram até o escritório do MyHeritage pela primeira vez para fazerem uma chamada com vídeo com a recém encontrada família. Rani e seus pais falaram com Galina, a filha de Pincha e com o filho dela, Paul. Eles trocaram histórias e experiências.

O lado israelita da família foi até os Estados Unidos para visitar Galina. Assista aqui (em inglês) este reencontro emocionante:

Rani não podia acreditar no que estava acontecendo:

“Não podia nem imaginar que seria possível encontrá-los depois de tantos anos de busca. Mas o inimaginável aconteceu e agora estamos aqui, batendo um papo com eles.”

Rani considera esta foto, com o seu avô e seu tio-avô Pinchas, uma foto vitoriosa.

“Penso que estas duas fotos ovais foram tiradas mais ou menos na mesma época, há mais de um século atrás, em 1915. Desde então, as fotos e seus donos passaram por duas guerras mundiais, a revolução bolchevique, prisões, mais prisões e deportações, cidades sitiadas por um longo período, fome severa, doenças, a cortina de ferro comunista, uma jornada perambulante até a chegada em Israel, guerras de liberação e independência, luto, perdas e emigração para dois continentes diferentes. Até que as fotos foram unidas novamente, representando a vitória.”

Pela primeira vez desde que a família se separou em 1930, os Markovich têm agora uma sensação de que tudo se encaixou. A história de separação e um mistério que de décadas foi finalmente resolvido.

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  • Cortinas


    novembro 20, 2018

    Justo as cortinas que preciso, obrigada!!