Ana Paula Fundo: Resgate de memórias através das fotografias antigas

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Hoje temos uma história de muita dedicação e amor à história da família para contar aqui no blog.

É a história da Ana Paula Fundo Pereira, nascida em Lisboa, Portugal, cuja ascendência vem de Vila Real, Trás os Montes. Ela é casada, mãe de 3 filhos, formada em Secretariado, mas também tem formação em Genealogia e Heráldica, de forma que faz pesquisas de genealogia profissionalmente.

E juntando a formação profissional à paixão pela história da família, a Ana Paula criou duas páginas no Facebook, o Resgate de Memórias, onde coloca fotografias antigas à procura dos legítimos donos; e A Casinha das Velharias, onde vende antiguidades e velharias.

É sobre o trabalho no Resgate de Memórias que gostaríamos de falar hoje. Ana Paula teve desde sempre um grande interesse por fotos antigas; para ela, as fotos são como um complemento de todo um conjunto de interesses pela História em geral e familiar em particular. Este interesse vem desde quando ela era pequena e foi se consolidando ao logo do tempo.

Ela começou a ter o gosto pela genealogia, quando tinha uns 10 anos de idade:

“Lembro-me de pensar nessa altura, que quando fosse grande ia pesquisar sobre a minha família na Torre do Tombo. Nessa época comecei a perguntar aos meus avós e tios-avós, sobre os pais deles, irmãos e avós e fui apontando tudo num caderno.”.

Desde então, ela já avançou até à 10ª geração na sua família, que vai até inícios do século XVIII, isto porque infelizmente não existem mais livros de registos paroquiais anteriores. Já na pesquisa da família do seu marido, num dos ramos, ela conseguiu chegar até D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Através da pesquisa e dos registros históricos, ela pode verificar que ele é descendente de um ilustre genealogista do século XVIII – de seu Gonçalo Coelho de Almeida e Castro – e assim, com base nas pesquisas deste genealogista, ela pode  chegar ao primeiro rei de Portugal.

Um dos grandes destaques da sua pesquisa, porém, é o trabalho voluntário que faz, procurando fotos antigas em antiquários, feiras de pulgas e em outros locais, para, posteriormente, poder devolvê-las aos seus donos originais. O intuito principal é o de fazer as pessoas felizes.

Uma das fotos encontradas por Ana Paula, arquivo pessoal. Foto tirada pelo fotógrafo Célestin Bénard, no Porto, finais do século XIX

Foi assim que ela pode vivenciar um dos momentos mais especiais da sua vida: ela conseguiu entregar um álbum de bebê ao seu dono.

Gostaria muito de convidar a todos a lerem o relato tão emocionado da família dona do álbum recuperado:

“Finalmente conhecemos os dois casais maravilhosos que proporcionaram à minha tia, hoje com 86 anos, e a todos nós, momentos inesquecíveis de uma emoção indescritível que nos levaram às lágrimas. Lágrimas sentidas de uma mãe, que supunha perdida uma relíquia, que há falta do seu filho mais velho, que partiu cedo, minimizaria a sua dor profunda. Lágrimas comovidas de toda a família presente e ausente, que finalmente, após 40 anos, pôde de novo voltar a ver as fotos, dedicatórias, escritos, de um pai que com amor, carinho e ternura tudo registou.

Tudo isto graças a uma Senhora que agora mais uma vez me surpreende, pois ao chegar e abrir esta página, volto a sentir uma enorme gratidão que me leva de novo ao arrepio e às lágrimas. A emoção é realmente traiçoeira, os olhos não aguentam e temos agora pouco a dizer, mas impossível se torna não enaltecer tão nobres e profundos sentimentos.

Ana Paula, à direita, e a dona do álbum, Dona Maria de Lurdes

Foi assim com a Ana Paula Fundo Pereira e o Tomás Gavino Coelho e um álbum perdido, que foi parar às mãos de uma senhora altruísta, que felizmente não se cansou de procurar quem fizesse parte da família daquele miúdo recém nascido, o meu primo CALITA, cuja história de nascimento ali se encontrava retratada.

Tal como grande parte de nós, a partir de finais de 1974, de carro, avião ou barco deixamos Angola e regressamos a Portugal. Para trás ficaram vidas, recordações, bens, haveres, ilusões, que todos perdemos. Foi o caso desta incrível história, que convosco quero partilhar.

Em 1975, dada a situação que se vivia em Angola os meus tios Carlos Lopes Alves de Oliveira (já falecido) e Maria de Lourdes Sousa A. Oliveira, acompanhados dos seus filhos Carlos (Calita) e Nelson, abandonaram a então Porto Alexandre, cidade onde residiam e rumaram a Lisboa, onde se fixaram para começar nova vida. Na bagagem despachada, para além de alguns poucos haveres, os álbuns de recordações eternizavam uma vivência feliz na terra da Felicidade.

Logo que chegaram (sabe-se agora) e ainda no porto, parte dos “caixotes” foram arrombados e vandalizados, desaparecendo então o álbum de bébé do filho mais velho (Calita), salvando-se o do filho mais novo (Nelson). Tristeza sentida mas havia que “tocar” o barco para a frente. Dado então como perdido, a vida foi correndo e, aos 22 anos, inesperadamente, e quando se preparava para sair da tropa, o Calita partiu, deixando um vazio imenso e a família mergulhada num desgosto sem fim.

40 anos depois a Sra. Dª Ana Paula Fundo Pereira, que tem por hábito adquirir antiguidades, descobre um álbum de bébé incluso num lote que acabara de comprar. Era o álbum do Calita, que o tio Carlitos com toda a paciência, amor e carinho de pai organizara desde o dia do seu nascimento. Esta Sra. altruísta, nobre de sentimentos que nunca esteve em Angola, que me merece todo o respeito e consideração, possuidora de uma forma de estar de enaltecer, verificando ao desfolhá-lo que havia fotos de bébé, relatos do nascimento, de presentes, do romper dos dentes, das primeiras palavras, e até de um caracolinho do cabelo, tentou em boa hora contactar gente de Moçâmedes.

Chega então à fala com o Tomás Gavino Coelho, família bem conhecida em Moçâmedes (basta pensar no Daniel Gavino do Banco de Angola), que coloca no Grupo Namibe no dia 23 um apelo que me é transmitido pelos meus primos Zezé (o José Cristão Peres) e pelo “mano” Zé João. Depois de falar com ele e com a Sra. tratei de entrar em contacto com o Nelson e a tia Lourdes, aqui com muito cuidado.

Após preparação prévia e dando graças,a tia Lourdes aos 86 anos, conseguiu reaver ontem o que jamais pensara encontrar e que por direito lhe pertencia. A emoção foi indescritível, esteve tudo muito bem e, em casa do Nelson viveram-se momentos incríveis, que creio as imagens documentam e falam por si.


A família toda está grata e deseja a todos os que tornaram possível o culminar feliz do regresso deste tesouro com recordações sem preço, tudo do melhor na vida.”

Se você ficou interessado, clique na página Resgate de Memória e participe! Todos que têm o gosto pela fotografia antiga e que querem ajudar a localizar os verdadeiros donos das mesmas são bem vindos!

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