Pesquisa genealógica afro-americana: quatro elementos importantes

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Nos Estados Unidos, comemora-se durante o mês de fevereiro o Mês Da História Negra. Convidamos Carolyn Tolman, do Legacy Tree Genealogists, para falar mais sobre a pesquisa genealógica afro-americana, para nos contar um pouco mais sobre como fazer este tipo de pesquisa. Esperamos que seja útil para todos aqueles que querem procurar suas raízes na África.

“Muitos de nós enfrentamos grandes desafios quando queremos fazer pesquisa genealógica africana americana. Começamos com nossos parentes mais próximos, ou com informações já conhecidas sobre familiares e seguimos as pistas que, assim se espera, nos levem para o século XIX, ou ainda mais além.

O censo populacional americano de 1870 é uma grande fonte, já que não apenas enumerou, mas nomeou, pela primeira vez, muitos afro-americanos. O censo de 1870 também pode apresentar algumas discrepâncias ou conflitos em relação aos dados históricos familiares. Nomes e sobrenomes e localizações específicas podem divergir da nossa própria documentação familiar. Os conflitos podem nos ter que fazer repensar as nossas estratégia.

Nota do redator: No Brasil, praticamente na mesma época, também houve um esforço para se contabilizar a população local. O censo brasileiro de 1872 foi meticuloso e abrangente e buscou-se contabilizar de norte a sul do país toda a população, detalhando-se a quantidade de estrangeiros, bem como a população escrava ou alforriada.

No entanto, nossas informações em mãos podem ser somadas aos registros e podem expandir nossa busca, se analisarmos com cuidado as nossas descobertas.

Então, como pesquisar nossos antepassados sobre os quais não temos dados muito precisos, como sobrenomes e locais? Onde concentrar nossa busca, quando os “fatos” em nossas mãos forem invalidados com informações conflitantes? Em que os detalhes podem nos ajudar? Obtivemos informações que entram em conflito com as evidências existentes? Será que temos fontes escritas que validam as histórias familiares conhecidas oralmente? Quando nos deparamos com obstáculos na nossa pesquisa precisamos voltar uma casa e analisar os registros que encontramos.

Precisamos utilizar práticas criativas para nos ajudar a procurar, extrair e analisar as fontes para que tenhamos todo um escopo de indícios diretos e indiretos para apoiar nossa pesquisa. Considere estes quatro elementos abaixo para aprimorar sua pesquisa.

1- Seja objetivo na sua análise

“Pense fora da caixa.” Não aceite informações de segunda mão como verdades absolutas, mas, sim, como possibilidades relevantes e viáveis. Tenha em consideração variações de nomes, sobrenomes e outros dados encontrados nos registros criados por terceiros, como enumerações no censo. Caso seu passado tenha sido um escravo, lembre-se que seu sobrenome talvez não bata com o do dono do escravo. Lembre-se que a história e documentação das vidas dos afro-americanos não foi feita de maneira clara. Assim, seja criativo ao obter e analisar os registros disponíveis.

A imagem abaixo mostra a escritura de emancipação lavrada em 1850 por John Morford, para emancipar seu escravo Octavius Alexander.  Imagine a confusão para um descendente que talvez ouviu falar de um John Morford, dono de escravos e de um antepassado, mas quando não consta nenhuma informação sobre um sobrenome diferente para a pessoa escravizada.

1850 Mason County, Kentucky County Court, May Term, Order Book. Mason County, Kentucky, Court Order Books, 1850 May Term, p. 427, Escritura de emancipação, John Morford emancipa Octavius Alexander, “County Court Order Books of Mason County, Kentucky 1789-1870,” imagens digitais, Familysearch.org, https://familysearch.org.

2-Diversidade

Diversifique seus esforços de pesquisa para englobar também vereditos de corte, declarações de impostos, horários dos escravos, sucessões, testamentos, diretórios, listas municipais e registros militares. Analise censos e registros vitais já conseguidos para criar um perfil resumido para cada antepassado. Determine que grupos de registros históricos podem lhe dar dicas adicionais. É importante se aventurar para além dos censos e registros vitais para que possamos validar relacionamentos familiares.

3-Expanda sua pesquisa

Expanda a sua pesquisa para incluir os vizinhos familiares conhecidos e familiares que você desconfia que sejam seus, quando verificar enumerações dos censos, notas anexadas a processos na justiça e declarações de impostos. Aumente o seu horizonte para que a sua pesquisa leve a novas pistas sobre seus antepassados. Este tipo de pesquisa em bloco, busca grupos de pessoas e não apenas um ou dois ancestrais de linha direta.

Ao pesquisar uma família que tenha sido escravizada, a pesquisa em bloco também pode incluir as vidas de potenciais donos de escravos. Os escravos não costumavam ser listados com seus nomes até a sua emancipação. No entanto, os donos de escravos aparecem em listas de escravos, vários registros jurídicos ou tributários e outros documentos do Estado que talvez tragam os nomes dos escravos. As listas de escravos identificavam os escravos pela idade aproximada, cor e gênero, mas não pelo nome. Estas listas podem ainda assim ser relevantes para o estabelecimento de possíveis matches, numa análise global de todas as pistas à disposição.

4-Evidências indiretas

As evidências indiretas são imprescindíveis para se provar relacionamentos e dar respostas aos questionamentos oriundos da pesquisa. A evidência por vezes não responde diretamente a uma pergunta em particular, mas juntamente com outras descobertas cruzadas é possível se fazer uma hipótese sólida para se explicar o parentesco. Não subestime a importância de evidências indiretas nas fontes encontradas.

Um caso mais recente de um cliente ilustra bem muitos dos princípios discutidos acima. Identificar o dono do escravo é um primeiro passo para se pesquisar a pessoa antes da emancipação. Em 1870, o vizinho de um antigo escravo – Simon Cooper [nomes foram alterados para se preservar a privacidade] e seus filhos – tinha o nome de John Cooper e ele era um homem branco. Enquanto Simon Cooper não possuía nenhuma propriedade e $400 em bens, seu vizinho, John Cooper, tinha propriedades no valor de $2,500 e  $1,200 em bens.

Somente uma família Cooper era dona de escravos em White County, Tennessee na listagem de escravos de 1860. Eles tinham duas escrava, uma de 45 e a outra de 12, sendo que nenhuma delas batia (nem no sexo, nem na idade), com Simon Cooper. Assim, mudamos o foco da pesquisa para os registros das sucessões e assim tivemos um avanço. Em 1834, John Cooper Sr. deu seu “garoto negro, chamado Simon” para sua esposa, Rebecca.

No censo de 1840, Rebecca, a viúva de John, possuía um escravo, do sexo masculino, com idade entre 24-35 anos e uma escrava, com idade entre 55-99 Depois de um inventário e verificação do patrimônio de Rebecca Cooper em 1841, a corte decidiu que fossem vendido seus escravos para que ela quitasse suas dívidas. O filho de Rebecca, John Cooper Jr, comprou um “homem negro, de nome Simon” por $923.00.

Livros do Tribunal de Sucessões, Acordos e testamentos, 1831-1841, White County, Tennessee, página 75, http://familysearch.org, acesso em julho de 2017

Então, em 1850, John Cooper Jr. tinha um escravo, de acordo com a listagem de escravos de 1850, um homem negro de 41 anos de idade. Simon permanecia com John Cooper na listagem de 1860, quando John se mudou para um outro condado do Tennessee, onde Simon novamente foi listado na listagem de escravos de 1860. Esta mudança foi registrada nos registros de propriedade e as identidades dos escravos permaneceriam um mistério, se não fossem considerados os registros anteriores e o censo de 1870. A provável família era formada pelo Simon, uma mãe não identificada, uma filha de 19 e os três filhos nomeados no censo de 1870. As idades foram registradas de forma um pouco diferente, mas constava que a mãe (cujo nome não foi registrado) havia morrido e que os três filhos viviam com seu pai. O parentesco também foi confirmado quando a filha de Simon se mudou para o Alabama, onde viviam outros membros da comunidade de White County.

Este caso é um exemplo clássico de como se encontrar escravos cruzando-se informações de listagens de escravos, sucessões e registros de propriedade civil. Simon e seus filhos carregaram o sobrenome do dono dos escravos por uma grande parte de suas vidas. O sobrenome de Simon talvez tivesse sido diferente se ele tivesse sido vendido ou herdado por um genro, ou caso ele tivesse escolhido um sobrenome diferente. Encontrar os donos antigos foi essencial para se encontrar a família da pessoa escravizada.

A família foi encontrada ao se ampliar o leque da pesquisa, incluindo aí a família do dono do escravo, examinando-se as propriedades e registros de bens da família escravagista, listagens de escravos e censos. Pistas adicionais foram dadas por registros de nascimento e falecimento dos filhos e netos dos antigos escravos. A pesquisa mais extensa também foi importante para que se verificasse a ligação entre a família de Alabama com a do Tennessee.

A pesquisa genealógica afro-americana pode ser muito desafiadora, mas ultrapassando-se estes desafios com paciência e perseverança é muito gratificante.

Legacy Tree Genealogists é a empresa de pesquisa  genealógica com as melhores classificações, dadas pelos clientes. Ela é recomendada como parceira de pesquisa pelo MyHeritage. Ela foi fundada em 2004, a empresa faz pesquisas genealógicas completas para seus clientes no mundo todo, ajudando-os a encontrar suas raízes e história familiar através de registros, narrativas e DNA. Visite Legacy Tree Genealogists para mais informações.

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