História da família: pesquisando as origens africanas

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O artigo de hoje vai encerrar com chave de ouro o mês da pesquisa familiar africana e da história negra. Convidamos um pesquisador brasileiro, o Daniel Fermino (foto abaixo, de seu arquivo pessoal), para nos falar um pouquinho mais sobre este assunto. O Daniel é fera na pesquisa genealógica. Ele pesquisa famílias portuguesas, italianas e alemãs, bem como famílias descendentes de escravos não só no Brasil, como em todos estes países relevantes. Para embasar e consolidar sua pesquisa ele já rodou mais de 15 mil kms (só no Brasil!) e o seu banco de dados já conta com mais de 300 mil nomes.

Muito obrigada Daniel, pela colaboração!

“MINHA HISTÓRIA FAMILIAR
Em termos de genealogia, nossa família possui uma peculiaridade. Descendemos tanto de proprietários de escravos, através de minha mãe, como também dos próprios escravos, através de meu pai.

Um de meus trisavós maternos, libertou seus escravos após a decretação da Lei Áurea, e creio que só fez isso porque se tornou ilegal ter escravos deste então. Por outro lado, meus antepassados paternos foram escravos no estado de Minas Gerais, na região da cidade de Mirabela.

Como muitos brasileiros interessados em História da Família, me debati com a dificuldade da pesquisa de escravos, e com a respectiva escassez de registros. Ao realizar pesquisas de minhas origens africanas, estabeleci um método, que ao menos para minha árvore genealógica tem sido bastante produtivo.

ETAPAS DE PESQUISA
1) Comece de onde você está: verifique em sua árvore com origem africana, as datas dos eventos vitais (nascimento, casamento, morte, etc) de seus antepassados afro- americanos (podem ser estimadas). Caso você busque por registros depois de 1889, procure diretamente nos cartórios de registro civil. Caso sua pesquisa já esteja em data anterior à 1889, sua principalmente fonte de dados serão os registros católicos;

2) Os registros católicos de nascimento, casamento e óbito podem ser, muitos deles, consultados no site do Family Search, gratuitamente. Em algumas paróquias existiam distinção nos livros que registravam estes eventos, havendo livros para “livres” (brancos ou negros alforriados) e livros para “escravos”. Eventualmente os registros de “livres” e “escravos” podem estar no mesmo livro;

3) Nos registros católicos, relacione todos os escravos citados de um determinado proprietário. Geralmente nos livros que tratam de escravos, os mesmos são identificados como sendo de propriedade de “João da Silva”, por exemplo. Ao fazer isso ao longo de todos os livros existentes naquela paróquia, você terá identificado
muitos dos escravos, separados por proprietário. Isso se torna importante pelo fato de que muitos dos relacionamentos que ocorriam entre escravos, se davam entre escravos de uma mesma fazenda, portanto de um mesmo dono;

4) Converse com as pessoas mais velhas de sua família com origem africana, e verifique se existe informações de que suas bisavós, trisavós ou algum outro parente era escravo. Assim você saberá, aproximadamente, em que época seus antepassados deixaram de ser escravos;

5) Através do Google, por exemplo, busque informações sobre a existência de comunidades quilombolas na região de onde vieram os seus antepassados com a origem africana mais distante;

6) No arquivo público do estado onde seus antepassados com origem africana moravam, procure o testamento do proprietário de seus antepassados. Eventualmente este testamento pode relacionar a doação de antepassados seus para outras pessoas por ocasião da morte do proprietário de seus antepassados;

7) Procure no livro de sepultamentos do cemitério (mantido pela prefeitura local) da cidade onde seus antepassados. Lá, muitas vezes é citada a origem das pessoas enterradas. No caso de africanos, pode ser citado o país de origem (por exemplo: Congo, Nigéria, etc);

8) Para uma melhor compreensão da sua história familiar, é proveitoso relacionar o timeline de sua família com a história do Brasil e da região de onde vem seus antepassados africanos, no Brasil;

9) Muitas vezes o progresso até seus antepassados africanos pode ser difícil. Uma maneira de esclarecer dúvidas a este respeito é através de um teste genético.

Aplicando este processo metodológico a minha própria pesquisa, cheguei até aproximadamente 1880 em minhas gerações de antepassados africanos, através de informações obtidas em Cartório de Registro Civil. Entrevistei minha avó paterna que me informou de que até sua bisavó (quem ela conheceu) ela sabia que não havia sido escrava.

Pesquisei as comunidades quilombolas na região de onde vieram meus antepassados em Minas Gerais. Em viagem até lá, visitei os cemitérios destas comunidades quilombolas. Notei que em todo o cemitério havia grande repetição de sobrenomes, o que evidencia a grande endogamia que havia entre os escravos (ver Etapa 3, acima). Através de moradores mais antigos destas comunidades, aprendi sobre a história da formação daqueles quilombos.

Pesquisei a história da região de onde meus antepassados africanos moravam aqui no Brasil. Identifiquei o nome dos latifundiários que eram proprietários de toda aquela região. Os sobrenomes deles (do marido e da mulher), eram os mesmos que existiam na minha família paterna, evidenciando assim que meus antepassados eram de propriedade destes fazendeiros.

Encontrei o testamento da esposa deste fazendeiro, onde ela doava um de meus antepassados para seu genro. Meu antepassado é citado por nome no testamento.

Consegui identificar que em 1730 meus antepassados africanos já estavam no Brasil, mas não encontrei mais registros anteriores a esta data, nem de sua chegada ao Brasil. Através de DNA identifiquei que possuo aproximadamente 20% de DNA africano, e que destes 20%, mais de 13% é proveniente de Serra Leoa. Considerando que o trânsito de escravos entre Serra Leoa e o Brasil foi relativamente pequeno, mais uma vez fica evidenciada a grande endogamia que existiu entre escravos.

Tenho muitas origens distintas (Portugueses, Espanhóis, Judeus, Índios, Africanos, etc), e sem dúvida minhas origens africanas são parte importante da minha identidade. Pesquisar e descobrir um pouco da minha história familiar africana, apesar de ter sido um desafio, tem sido uma honra. Espero que estas dicas possam ajudar outros a também obter sucesso nesta seara.”

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  • Oliveira Alves Pereira Filho


    março 29, 2018

    Fantástica a sua pesquisa. Meus parabéns e agradeço suas dicas, muito úteis.
    Minha família tem peculiaridades parecidas com as suas: encontrei um ramo que era detentor de escravos e outro em que, muito provavelmente, eram escravos.
    Outra dica dos registros católicos para identificar (possíveis) escravos, era a ausência de sobrenome. Em alguns livros que tive a oportunidade de pesquisar, era frequente a referência a escravos apenas pelo primeiro nome ou com sobrenomes tais como “cabra” “crioulo” etc.