Entrevista: Aparecido Silva do Arquivo Público do Estado de São Paulo

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Recentemente, foi possível perceber, tanto no Museu da Imigração (cujo acesso aos documentos se dá online, no próprio site da instituição) quanto no Arquivo Público do Estado de São Paulo, um grande aumento na busca de registros históricos ligados à imigração. Segundo o portal de notícias G1, entre os anos de 2010 a 2015 o Arquivo recebeu 5.135 requerimentos de “certidões de desembarque” de imigrantes. Durante o ano de 2015 foram 7.652 pedidos e já nos seis primeiros meses de 2016 foram 4.091, ou seja um aumento de 30%.

No Museu da Imigração, onde o MyHeritage tem um espaço para consultas no SuperSearch, bem como para a criação de árvores genealógicas sob a orientação da estagiária Izabelle Silva, recebem-se muitos visitantes, que têm o objetivo de encontrar registros de antepassados imigrantes. Entretanto, poucas pessoas sabem que os livros de registros de matrícula, as listas de desembarque e outros documentos referentes ao tema não se encontram, fisicamente, no local. Esses documentos, que um dia compuseram o acervo do Museu, estão agora no Arquivo Público do Estado.

Esses documentos são importantes para procurarmos informações sobre nossos familiares e podem contribuir para expansão da nossa árvore genealógica aqui no MyHeritage. Para saber um pouco mais sobre a organização dos documentos de imigração – ou aqueles com potencial para encontrar informações de antepassados – conversamos com Aparecido Oliveira da Silva, diretor técnico do Arquivo Público de São Paulo. Aparecido nos explicou como se dá a organização do acervo, quais são os documentos com potencial para encontrar pessoas (seja imigrante ou não) e muito mais.

Izabelle Silva (Estagiária do MyHeritage no Museu da Imigração): Aparecido, você poderia falar um pouco sobre sua formação acadêmica e sobre o seu trabalho no Arquivo Público do Estado?
Aparecido Silva: Eu sou formado em História e comecei a trabalhar no Arquivo em 1993, há 24 anos. Durante todo esse tempo estive em contato com fontes e documentações tratadas e não tratadas, entre elas, o fundo da Secretaria de Agricultura, que é uma das documentações mais pesquisadas. Inclusive, tivemos um boom de pesquisas da documentação do DEOPS, Departamento Estadual de Ordem Política e Social, que em determinado período foi responsável pelo cadastro de imigrantes também. Então há essa possibilidade de pessoas encontrarem informações sobres seus antepassados e informações também do fundo do DEOPS, que já estava aqui.

Aparecido Silva

Tem outros documentos que foram transferidos pela Secretaria de Agricultura, que têm tudo a ver com a imigração – que é a documentação referente aos núcleos coloniais – então é importante verificar os relatórios da Secretaria de Agricultura e a documentação do Poder Judiciário. São documentos que a gente sempre citou que têm potencial de localizar pessoas. Então, nos fundos do Poder Judiciário e Secretaria da Agricultura, a partir dos processos de inventário, testamento e de fichas das pessoas que foram monitoradas pelo DEOPS nos períodos de guerra, encontram-se documentos que têm esse potencial de localizar pessoas. É essa documentação que veio do Museu da Imigração para cá: registros da delegacia especializada em estrangeiros, as listas de bordo, as cartas de chamada, e os currículos que a gente ainda não teve acesso, também. Os documentos do Fundo Social, em geral, têm esse potencial de encontrar pessoas e servem para a genealogia.

Há, também, a documentação cartorária, mas essa documentação está passando por um processo de descrição para disponibilização. Além disso, existe a documentação dos cartórios de registro civis que ainda não damos acesso ao público, mas que o Arquivo tem um volume gigantesco, não sei te dizer em números exatamente. Temos todo um potencial de encontrar documentações que contribuem na busca por pessoas, por isso chamou a atenção do Family Search, que fez a digitalização das fichas da Delegacia de Estrangeiro e também dos documentos cartorários, então esses documentos estão sendo digitalizados e depois vamos dar acesso ao público geral.

IS: Sobre a tipologia documental do Arquivo Público hoje, o que o público pode encontrar?
AS: São vários fundos. Recentemente a gente publicou o inventário do fundo da Secretaria de Governo, que pega do início do período colonial e vai até 1823, e está disponibilizado no site. Tem outros fundos que estão sendo identificados, como no caso da Secretaria da Agricultura. A gente tem a documentação da Secretaria de Segurança Pública, Secretaria de Educação e Instrução Pública, que também tem esse potencial de localizar alguns alunos, e também a documentação sobre negócios eleitorais, ou seja possíveis votantes estrangeiros, ou não.

IS: O que é interessante porque os imigrantes até recentemente não tinham direito de voto e de se organizar politicamente…
AS: Por isso que aparece nos processos eleitorais que, seja estrangeiro ou não, se essa pessoa tivesse posses, ela seria uma possível votante. Teria que seguir todos os critérios, mas essa pessoa apareceria, ao menos, cadastrada ali. Já teve gente que encontrou nesse segmento alguns estrangeiros, algumas pessoas.
Em geral são esses fundos: Secretaria de Transportes; de Educação; Instrução Pública; Secretaria de Governo e outros fundos que estão sendo organizados. A maior parte da documentação foi produzida pelo poder executivo. Nós temos aqui documentação do poder judiciários, e também do legislativo, mas a documentação, em sua maior parte, está ligada ao poder executivo.
IS: Nós falamos sobre o DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) e documentos referentes à imigração, mas qual o fundo mais procurado hoje? Porque sabemos que ano passado teve um grande aumento nos requerimentos de certificados de desembarque…
AS: Sim, até saiu uma matéria na Globo, que era sobre esse aumento. Percebemos esse aumento e ele é sazonal, quando os consulados facilitam os processos de cidadania e aceitam as documentações que estão aqui no arquivo, a gente verifica esse aumento, então acaba acontecendo. Mas um dos fundos mais pesquisados aqui é esse da Secretaria de Governo. A procura aqui é maior por conta, principalmente, dos historiadores, pois os documentos que estão aqui trazem muito subsídio para a área de história, de economia, de arquitetura, direito.

IS: Aparecido, sabemos que o edifício em que estamos é um prédio novo e construído com o objetivo de abrigar um arquivo de grande porte. Você pode falar um pouco sobre essa mudança?
AS: O Arquivo funcionou até 1996, na última sede antes de vir pra cá, na rua Antônia de Queirós com a Avenida da Consolação. O prédio era limitado e não era um prédio próprio, então viemos para cá com uma sede própria – também, coincidentemente, uma fábrica de tapete -mas o prédio ainda tinha suas limitações. Com o sistema de gestão documental, o SAESP, funcionando, percebeu-se que havia ajustes a serem feitos, e a parte de gestão documental a ser cumprida.
Foi quando se estabeleceu que seria construído um prédio maior, esse prédio em que estamos. São dez andares, e nesses dez andares, cinco são de depósitos, com uma capacidade gigantesca, aí começaram regularmente a fazer esses recolhimentos, mas temos, ainda, muito espaço vazio para abrigar. Foi criado um prédio climatizado para essa finalidade, com o controle de temperatura e umidade certa para a preservação dos documentos; tem a área de conservação enorme e um laboratório muito bem estruturado. Então hoje documentação chega e permanece bem segura.
Foi uma preocupação muito grande quando chegou a documentação do Museu da Imigração, por exemplo. Estávamos em obra e ficou a dúvida se iríamos suportar e dar conta da guarda e manutenção deste arquivo. Isso foi possível devido a reestruturação do Arquivo, assim podemos digitalizar e publicar na internet e potencializar a questão da pesquisa.

Arquivo Público do Estado de São Paulo

IS: Você pode explicar como está organizado os documentos referentes à imigração que foram transferidos do Museu da Imigração?
AS: Estão organizados por tipologias documentais, algumas séries estão agrupadas. As fichas da Delegacia Especializada em Estrangeiro, por exemplo, já foram digitalizadas e o acesso é digital – eventualmente o público tem acesso aos documentos originais. As listas de desembarque também foram digitalizadas; as que tinham condições de serem digitalizadas estão agrupadas na parte de desembarque. Mas ao documento original o público não tem acesso, com exceção às pessoas que emitem certidão que eventualmente acessam sua lista por um erro de digitação.
Os livros de matrícula da Hospedaria também estão todos digitalizados, então os originais ficam guardados e o outros segmentos, como cartas de chamada e a documentação do Fundo Social, ainda estão passando por esse processo de descrição. Separamos por grupo e subgrupo no máximo, não vai até o item documental, isso é algo que no futuro pode vir a ser feito, mas estamos separado por fundo > grupo > subgrupo.

IS: Os livros de matrícula estão 100% digitalizados?
AS: Então, os livros de matrícula estão todos digitalizados. O que percebemos, a partir de uma demanda externa, é que, nesses bancos de dados, há alguns erros de transcrição e mais alguns problemas. Estamos, agora, fazendo esses ajustes em conjunto com o pessoal do Museu da Imigração para começar a fazer uma revisão disso. Ainda não sabemos qual será o nível de revisão e como faremos isso. Há, também, erros por alguns registros estarem sobrepostos…

IS: Algo que é recorrente nas pesquisas que fazemos no Museu é abrir o documento digitalizado e, ao invés de abrir a página do livro que estamos buscando, abre outra…
AS: É! São ajustes que o Cepid (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão) do Arquivo, o pessoal da paleografia e o pessoal do Museu da Imigração estão anotando para que a gente possa ajustar tanto o nosso site, quanto o site do Museu.

IS: Quanto aos registros dos migrantes brasileiros que passaram pela Hospedaria, esses arquivos estão digitalizados e publicizados também?
AS: Então, a nossa demanda de atendimento está ligada aos estrangeiros, eventualmente aparece alguém procurando por brasileiros. Essa parte da documentação é mais ligada à Secretaria de Fundo Social, que recebeu essas pessoas. Então a gente não está ainda mexendo muito nessa documentação e não está claro para o público também. Mas é possível, quando tiver esse inventário publicado, as pessoas terem acesso a essa documentação.

IS: Qual a importância, para você, da relação entre preservação de documentos e genealogia?
AS: Gigantesco! Se não me engano, em 2009, fui ao Congresso da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), onde tinham muitas pessoas envolvidas com o campo de estudo da genealogia que se mostraram muito ansiosos para saber como estavam sendo preservados os documentos com potencial genealógico, como é o caso do maço de população, do fundo da Secretaria de Governo, que foi produzido primeiro com um intuito militar, com possíveis pessoas que podiam compor a força militar e depois acabou virando o senso populacional que é um dos mais completos e está aqui no Arquivo Público do Estado. Então é uma fonte fantástica para a genealogia.
O Arquivo tem esse potencial de documentação de genealogia, com documentos eleitorais, maços de população, vários testamentos e, agora, a documentação sobre o imigração (que chegou e aqui já existia). O Arquivo têm prestado atenção nisso.

IS: Até mesmo essa relação com o Family Search agora, tendo em vista que a genealogia para eles é de grande importância.
AS: Exato, essa parceria possibilita que o acesso seja facilitado e que os originais sejam preservados. O Convênio é o seguinte: o Arquivo prepara a documentação, deixa de forma que eles possam manusear a documentação e digitalizar e depois a gente recondiciona. O que eles fornecem para gente é um HD com a cópia que eles digitalizaram. A digitalização é feita aqui e com os equipamentos do Family Search. Nesse, que eles estão fazendo agora, que é a documentação cartorária, eles estão participando até da parte de conservação, higienização e recondicionamento.

 

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