9    dez 20100 Comentário

O Natal pelos tempos

As crianças correm pela casa, incomodadas pelas roupinhas quase limpas que a mamãe não cansa de recomendar: -Não se arraste pelo chão! Como se joelhos e palmas da mão fossem o corpo inteiro. Os homens já se posicionam, juntos, a conversar ainda sobre as trivialidades da semana, mas, em breve estarão mais alegres e falando alto e ocasionalmente lançando um apelo: -Olha este menino se arrastando pelo chão. Alguém sempre passa pelo equipamento de som, graduando um pouco mais alto as canções natalinas, um pretexto para algumas mulheres poderem falar no tom normal, sem abaixar a voz e os homens falarem mais alto sem precisarem falar em tom normal. Os ambientes se misturam em  música, vozes, gritos de crianças, e o saboroso cheiro que vem da cozinha, onde uma cozinheira, vestida elegantemente se preocupa em verificar se o assado esta no ponto e se a sua maquiagem ainda esta no lugar. Algumas crianças ajoelhadas diante da árvore piscando, tentam ler seus nomes nos presentes que  escondem o pe da árvore, e mesmo que ainda não saibam ler, tentam adivinhar e colocar dentro das caixas os seus sonhos e pedidos, como se coubesse uma bicicleta em caixa de sapato. -Pai......Mãããeee...Qual é o meu? Uma tentativa de sobrepor todos os sons da festa e se fazer notar. É uma Festa de Natal. Quanto mais gente, mais sons, mais conversas...e mais roupinhas para lavar no dia seguinte.

O Natal é uma grande tradição para muitas famílias pelo mundo, mas sua história é tão brilhante quanto as lâmpadas da árvore, e tão cheia de significado quanto a caixa de sapatos.

O espírito natalino toma conta de todos, e a alegria contagia, emociona e atravessa a noite na vigília das crianças na chegada do bom velhinho. Todo o simbolismo, desde o presépio de São Francisco até a garrafa vermelha da coca-cola, é carregada de emoção, piedade e caridade, uma  festa que traz consigo uma trajetória milenar com altos e baixos e com constantes transformações  que a cada ano, renova, recria-se e se torna mais viva.

'As origens do Natal é predominantemente uma celebração religiosa, que os cristãos palestinos do século IV usavam para comemorar o nascimento de Cristo. Uma peregrina européia chamada Etéria que visitou a Palestina naquela época, escreveu um diário e neste diário descreveu os locais, costumes  e cerimônias religiosas que conhecera, Naquela época a Igreja da Natividade ja existia e ela escreveu que os cristãos passavam a noite da Festa da Epifania, rezando, cantando e celebrando perto da gruta onde o Cristo teria nascido. Depois São Jerônimo escreveu uma carta onde contava que sua mãe em peregrinação pela Terra Santa havia visto o estábulo onde Cristo nascera. Estes relatos influenciaram a os povos do Ocidente que já no século IV, comemoravam o nascimento de Jesus Cristo no dia 25 de dezembro, mas a popularização desta festa só se daria após o Concílio de Éfeso, com a proclamação do dogma da Maternidade Divina de Maria, esta proclamação tinha por objetivo por fim as divergências encontradas no que se considerava eresias na época como o arianismo e o sabelianismo. Em Roma foi construída a Basílica de Santa Maria Maior, dedicada a Maria mãe de Jesus.

Giotto- Presépio de Greccio 1290-1295 - imagem wikipédia

A partir do século V, as celebrações natalinas ganharam força com as celebrações no dia 25 de dezembro.No interior da Basílica foi construído um oratório que representava a Gruta de Belém.

O bispo de Roma, o Papa, dava início as celebrações no dia 24 de dezembro e era dividido em 3 ofícios, no primeiro ofício as celebrações eram realizadas diante da gruta da Basílica Santa Maria Maior, o segundo ofício era celebrado nas primeiras horas da manhã do dia 25 na Igreja de Santa Anastácia e o terceiro ofício era durante o dia com uma grande celebração na basílica de São Pedro, repetindo assim as informações do diário de Etéria onde a descrição das celebrações também eram divididas em três partes.

Nestas celebrações o Bispo de Roma proferia calorosos discursos e neles pedia aos fiéis que celebrassem a data do nascimento de Jesus Cristo moderando vícios e praticando virtudes e que não confundissem as duas festas, do nascimento de Cristo e da festa do Sol Invicto, celebrada pelos pagãos no solstício de inverno no dia 21 de dezembro, uma  relação muito pequena entre as duas festas é bem provável que tenha existido, mas como a festa do Sol Invicto era comemorada desde 274 D.C, a festa do Nascimento de Cristo deveria ser melhor estruturada para substituir  a tradição não cristã da época.

Nos séculos seguintes as festas natalinas difundiram pelo Ocidente, graças a expansão do papado de Roma  pelos reinos do Ocidente. Mas foi só na idade média que a cena do nascimento de Jesus se cristalizou conforme o Evangelho de Lucas. Foi  São Francisco de Assis, que uniu a missa natalina a representação do presépio.

Em 1223, São Francisco decidiu comemorar o Natal de uma forma inusitada. Em Greccio, um vilarejo, pediu a um certo João que preparasse  para a noite de Natal um cenário que imitasse a descrição bíblica. De noite diante de monges que haviam sido convidados e do povo da região, segundo historiadores, um homem presente a cerimônia teria tido uma visão onde, sobre o feno, o menino Jesus dormia profundamente e São Francisco o acordava. No presépio de São Francisco não existia as figuras de Maria ,de José, dos Reis Magos ou de qualquer outra pessoa, apenas boi, burro e palha espalhada, formando um cenário teatral. São Francisco juntou os dois ofícios já conhecidos e constantes do missal da época, a celebração na gruta da basílica Santa Maria Maior, com a celebração da Igreja de Santa Anastácia.'

Resumo extraído do trabalho de André Luiz Pereira, Doutor em História Social - Revista História Viva - Edição nº 50

Basílica Santa Maria Maior -PIRANESI, Giovanni Battista, 1720-1778

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