9    jul 20101 Comentário

Revolução Constitucionalista de 32

Nasci e cresci em Cruzeiro, no Estado de São Paulo, divisa com os Estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

Cresci ouvindo as histórias e testemunhos dos que viveram a Revolução Constitucionalista de 1932, e foram muitas histórias, pois foi em Cruzeiro, um dos mais sangrentos palcos desta revolta que trouxe ao Brasil a sua Constituição, Carta Magna dos direitos dos brasileiros.

Foram histórias incríveis, que eu pude confirmar indo aos locais e cavar reliquias nos vestígios de trincheiras, deixadas pelos soldados daquelas batalhas. Ainda estão lá, vistas hoje de um marco-monumento no alto da Serra da Mantiqueira, na estrada que liga São Paulo ao Sul de Minas,  que esconde o Túnel, construido pelo Imperador D.Pedro II e inaugurado em 5 de Março de 1883 e por onde São Paulo se defendeu com garra, sangue e determinação.

Das histórias que ouvi várias delas dariam livros, como por exemplo, a história de um ataque feito pelos soldados mineiros em uma noite de chuva, que criou pânico e confusão nas fileiras paulistas, fazendo com que muitos soldados ainda sem a experiência de campo de batalha, debandassem serra abaixo, e um destes, foi encontrado morto e preso a uma cerca agrícola, com a expressão de terror e agonia estampada no rosto, sem saber que o que o segurava era o arame farpado e não o inimigo.

Nesta época, Cruzeiro era uma cidadezinha pequena, entroncamento ferroviário Rio-São Paulo e Minas e ponto estratégico para a revolução, que pretendia invadir Resende no Rio de Janeiro e intimidar  Getúlio Vargas, mas, a desistência de Minas no apoio a revolução, com eventual passagem para o lado de Vargas, deixou São Paulo a travar sozinho a batalha.   O Túnel passou a ser um local de inúmeras batalhas, inclusive com a presença do então médico  e futuro Presidente Juscelino Kubtischek em algumas batalhas, e o local onde muitas histórias foram vividas.

A população da época, pacifica, viu derrepente suas ruas, avenidas e prédios públicos serem ocupadas pelo exército paulista, o que animou o dia a dia da pacata cidade. O Prédio do cinema, na avenida principal,  foi transformado na sede do M.M.D.C. e a algum tempo atrás, eu pude ver o que restou dele, uma parede pintada com motivos de cinema e que o tempo já deve ter apagado; A padaria "Pão Pão", que teve a parede frontal arrebentada por uma bomba lançada por uma avião inimigo e que não explodiu por milagre, já que a população onde ela caiu era intensa, agora é um ponto comercial; O antigo e ainda Grupo Escolar, onde o Armistício, termo de cessação do conflito, foi assinado na Convenção Militar de Cruzeiro em 2 de Outubro de 1932, e que era o Quartel General das Tropas Paulistas, ainda esta lá; No Museu, ainda esta lá a "matraca", uma engenhosa ferramenta que produzia o som de tiros de metralhadora e que mantinha amedrontados os soldados inimigos, e sem saberem que este recurso fora criado nas oficinas da Rede Mineira para "enganar" o inimigo que também não sabia da falta de munição dos soldados paulistas; As histórias estão todas lá, só não estão mais os personagens.

O trem que avançava pelo território mineiro, blindado com placas de aço, protegia os soldados na investida contra os inimigos, ou o pelotão de mercenários alemães da primeira grande guerra, que subia até o túnel quando as coisas ficavam insustentáveis para os paulistas, ou o trem de mantimentos que subia a serra com tropas e alimentos e descia com os corpos dos que caiam em combate,  ou o uso de serpentes vindas da Bahia e soltas em território paulista para causar danos e medo entre os paulistas, e que depois, sem predadores infestaram este trecho da região. São história.

Mesmo que apenas um ano depois, pressionado pelas lideranças políticas, Getulio Vargas tenha convocado a Assembléia Constituinte que deu ao Brasil em 1934 a Constituição, o que  levou a São Paulo a uma vitória política, mesmo que perdendo em campo de batalha. Valeu a Constituição do Brasil.

Hoje, muitos não sabem nem mesmo o que quer dizer o feriado estadual que presenciamos. A Revolução de 32, ainda tem cicatrizes na Serra da Mantiqueira e em muitas famílias, e basta cavar um pouco só, as trincheiras, para achar as cápsulas de 80 anos atrás.

Cavar trincheiras, todos nós estamos a fazer, e estamos procurando vestígios.

O que um evento deste porte pode causar em nossa história pessoal? O que na história de sua cidade, de seu Estado, afetou a sua família? O que passou o seu antepassado para construir um país melhor ou defender uma causa?

Como estudar a genealogia da família sem estudar o ambiente que elas viveram?

Será que ai, onde você mora, onde moravam seus antepassados, não terá também uma história de orgulho, que você tenha vontade de compartilhar com todos nós? Qual é a história de sua terra natal?

É a mesma que a minha? Eu me lembro da minha cidade e sinto saudade  da beleza da Serra da Mantiqueira, dos passeios pela exuberante paisagem, do jeito ainda de interior das pessoas, do sotaque que não sabe se é mineiro, paulista ou carioca, mas sempre  tenho a satisfação de ter me criado em uma cidadezinha tão significativa para a história.

Hoje, é feriado em São Paulo, mas, para mim, é o dia que a minha cidade natal se transforma na Capital da Revolução Constitucionalista, com muito orgulho.

Escave trincheiras.

Escreva a história de sua cidade, e eu terei o prazer de postar aqui.

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  1. muito chato

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